VIVER ABRIL | PENSAR ABRIL | SONHAR ABRIL
Um espaço de partilha para celebrar e refletir Abril
O Teatro Só propõe uma prática criativa de caráter experimental que a cada ano ocupa a Rua Sousa Prado como lugar de experimentação artística, reunindo um conjunto de intervenções de cariz expositivo.
Escutar o lugar de revolução e liberdade hoje e entender como influencia o modo como projetamos o amanhã. Uma reflexão partilhada entre artistas e comunidade local sobre revolução e liberdade, aprofundando o modo como Abril contribuiu para a alteração do pensamento sobre estes signos numa perspetiva estética e política.
ABRIL 2025
Rua Souza Prado, Odemira
RUA VIVA | A REVOLUÇÃO É UM LUGAR COMUM
[Daniel Pinho + ARDE Atelier]

A atmosfera da iluminação não apenas evidencia a rua, mas faz dela um elemento vivo da memória coletiva. A intervenção propõe que a arte e a história se encontrem nesse espaço. As exposições e intervenções que ali se sucedem são convites à reflexão, à celebração da revolução e sobre o que é a liberdade no presente. O vermelho é o cenário para este encontro de arte e história como metáfora da luta pela liberdade conquistada pela união de um povo que saiu à rua em 25 de abril de 1974.
PORTADAS DE LIBERDADE
[Gonçalo Condeixa + Alunos da Escola Secundária de Odemira]

Num edifício devoluto, seis chapas de madeira assumem a forma das janelas e portas ausentes, transformando-se em telas para um mural coletivo. Criado pelos alunos de artes do 10ª, 11ª e 12ª anos do ensino secundário de Odemira, com a orientação do docente Gonçalo Condeixa, “Portadas de Liberdade” parte do icônico cartaz “A poesia está na rua”, concebido por Maria Helena Vieira da Silva a pedido de Sophia de Mello Breyner Andresen, símbolo perene do 25 de Abril de 1974.
As pinturas evocam o espírito da Revolução dos Cravos e são acompanhadas por palavras da poetisa, extraídas do seu discurso na Assembleia Constituinte. Entre imagens e versos, o mural dá voz às paredes silenciosas, reavivando a memória coletiva e projetando no presente a força transformadora da arte.
Neste edifício marcado pelo abandono, a criação coletiva resgata o espaço público e reafirma que a liberdade – tal como a poesia – nunca se fecha, mas abre-se ao mundo.
A GAIOLA E A FISGA
[Gonçalo Condeixa]

Entre grades suspensas, palavras aprisionadas aguardam o voo interrompido. Livros outrora silenciados repousam nas entranhas de gaiolas, onde a liberdade tremia sob o peso da censura. As fisgas apontam para o invisível — caçadores de ideias, emboscados na escuridão do medo. No chão, rasgos de papel ferem a terra, lembrando que nem sempre o verbo nasce intacto. As linhas riscadas, cortadas, negadas, são ecos de vozes sufocadas. Armadilhas disfarçadas esperam pássaros que nunca chegam, mas a memória persiste, inquieta. Aqui, cada página rasgada é uma asa mutilada, cada livro encerrado é um voo por cumprir.
A liberdade — mesmo caçada — sobrevive.
Esta instalação artística contou com o apoio dos utentes da Associação de Paralisia Cerebral de Odemira.
LIBERDADE POÉTICA
[Sandra Santos]

Uma instalação que convida a uma viagem pela poesia, pelas palavras que poeticamente se juntam para proclamar a liberdade. Desde autores portugueses pré e pós-revolução à sociedade atual, como se define a liberdade? Alunos da Escola Profissional e reclusas do Estabelecimento Prisional de Odemira dão a sua voz à liberdade.
Neste espaço de “liberdade poética”, há luzes que iluminam poemas e vozes e corpos a proclamar a liberdade numa expressão poética.
Passado, presente e futuro encontram-se numa linguagem musical, figurada e criativa que revela a liberdade em versos.
Revela diferentes sentidos desta tão almejada condição. Ser livre e profundamente humano traz o ser poético à rua.
KANTAR ABRIL
[Ivo do Carmo]

Uma instalação que evoca as canções do 25 de Abril, as cancões censuradas e as canções do rescaldo, mas também algumas canções e eventos do panorama musical internacional desse tempo, favorecendo assim a contextualização e o contraste do significado de Abril, sempre em aberto e em construção. KANTAR ABRIL é uma celebração coletiva, um convite para relembrar, reflectir e vivenciar a democracia através da arte, colocando o público como principal protagonista na construção de um futuro mais livre e igualitário.
RETRATOS DE ABRIL
[Nuno Torres]

Partimos do mote das comemorações dos 50 anos de Abril e fomos revisitar memórias desse período. Andámos em Lares e Associações de moradores do concelho de Odemira e encontrámos rostos e histórias várias que nos permitiram criar esta exposição, ao qual juntámos um conjunto de imagens do espólio do Município de Odemira
Esta exposição compreende uma dimensão visual composta por retratos, de rostos presentes de quem viveu Abril, e por fotografias que revelam lugares de outros tempos de Odemira. A dimensão sonora assenta numa seleção de histórias recolhidas por aqui e ali , que foram articuladas com arquivos sonoros que marcaram a revolução de Abril.
OLHO DE JUDAS
[Gonçalo Condeixa + Nuno Torres + Sérgio Fernandes]

Instalação que convida o espectador a mergulhar na realidade dos prisioneiros políticos, expondo a opressão, o isolamento e a violência sofrida dentro das celas. A peça central é um cubo negro, enigmático e fechado, onde apenas pequenas aberturas circulares — os “olhos de Judas” — permitem vislumbres fragmentados do interior.
Cada abertura direciona o olhar para diferentes detalhes do espaço: uma cama austera, um cabide de madeira e um cobertor gasto, todos iluminados por um antigo candeeiro a petróleo, cuja luz fraca ressalta a precariedade e a solidão da cela. A impossibilidade de ver o todo obriga o visitante a recompor mentalmente a cena, sentindo a frustração e a claustrofobia dos encarcerados.
Espalhados pelo cubo, outros nichos revelam esculturas-objetos que simbolizam sentimentos, estados de espírito e vivências dos prisioneiros.
Além das imagens, a instalação incorpora o som como elemento sensorial. Podendo, das suas aberturas, ecoar o discurso de Sophia de Mello Breyner na Assembleia da República em 1974. Nesse momento histórico, a poeta denuncia não só a censura e a degradação da cultura durante o Estado Novo, mas também a própria existência do prisioneiro político como símbolo máximo da repressão. O seu testemunho ressoa como uma denúncia e um apelo à memória coletiva, reafirmando o papel essencial da cultura na construção de uma sociedade livre e justa.












